terça-feira, 2 de agosto de 2011

um homem, um herói.

esse post vai ser especialmente sobre o meu pai.
bom, pra quem me conhece e não conhece ele, normalmente tem um pensamento assim sobre ele: " o pai da mayara deve ser um saco, mão de vaca e chato "
as pessoas que conhecem ele e não sabe como ele é dentro de casa: " porra, o mauro é muito foda, compra cachaça pra gente, quando a gente precisa ele ajuda... "
enfim, meu pai é praticamente como eu. na verdade eu que sou como ele né.. enfim,
somos muito, muito parecidos, inclusive fisicamente.
mas esse texto é sobre ele, então voltando...

meu pai é irmão de mais 8, um deles, já morreu. hoje ele possui 4 irmãs e 3 irmãos, uma irmã homossexual, cerca de 5 irmãos não falam com ele ou possuem um relacionamento muito distante. seu pai já é falecido, e sua família era muito, muito pobre mesmo, e vieram lá do interior de Minas Gerais.
a palavra que melhor descreve meu pai, é indeciso. ele é muito instável, ri muito, mas também se irrita fácil, principalmente quando o assunto é dinheiro. ele é um homem muito preconceituoso, e custuma tirar sarro de tudo. ele também é um homem de palavra, normalmente promete e cumpre.

a sua história de vida, pra mim é um exemplo em alguns aspéctos, e uma decpção em outros. ele me conta que já passou fome, seus pais não tinham muito tempo pra trabalhar e cuidar dos filhos, portanto eram sempre os mais velhos que cuidavam dos mais novos. ele é um dos mais velhos.

ele já me contou históra muito tristes, como por exemplo uma vez que ele foi tocar gado para seu pai e passou o dia inteiro no mato, estava com muita fome e muito longe de casa. o dia todo sem comer. estava numa estrada muito deserta e passou um caminhão de tomate. ele continuou andando, no caminho, encontrou um tomate que havia caido do caminhão. morrendo de fome, ele comeu, sem sal, sem descascar, sem nem uma folha de alface pra acompanhar. ele sabia que quando chegasse em casa provavelmente não teria nada pra comer, e aquele tomate foi a coisa mais gostosa que ele já comeu.

começou a trabalhar com 12 anos, entregando pão em uma bicicleta. quando terminou o terceiro ano, se mudou. não avisou o pai, que só percebeu que ele saiu de casa, cerca de 3 meses depois. foi embora apenas com o dinheiro da passagem.
ele se mudou para Ouro Preto, em busca de estudo. foi parar em uma republica, onde a limpava em troca de um prato de comida. disse-me que cansou de fazer sopa só com xuxu, para alimentar uma galera que morava lá. ele se formou. visitava a família de vez em quando. o dinheiro que ele ganhava quando trabalhava, entregava todo ao pai.

quando se formou em técnico em mineração, se mudou para Cajati, em São Paulo. foi trabalhar na Serrana, hoje, Bungue. lá conheceu minha mãe, que já possuia uma casa. foi morar com ela, não precisou comprar nem um garfo. logo eu nasci. meu pai trabalhava na Serrana e em seu tempo livre, tirava leite e fazia iogurte, levava de casa em casa para vender e ainda por cima cuidava de uma horta.
um de seus irmão lhe fez uma proposta, ele aceitou.

nos mudamos pro Rio de Janeiro em 24 de junho de 1997. meu pai abriu uma farmácia com meu tio, chamada Diffy Drogas. passamos por muitas dificuldades, nos primeiros 6 meses, dormiamos na sala da casa do meu tio, uma casa minúscula, deve ser do tamanho da sala da minha casa atual. conseguimos uma casa em frente a favela do Morro da Mangueira, na Vila Isabel. meu irmão nasceu. em cerca de 3 anos, meu pai já estava com 2 farmácias e fomos morar em um apartamento. moramos lá por 7 anos.

nesse tempo, meu pai cresceu, conseguiu muito mais farmácias, houve um tempo em que ele tinha 13, já deveria ter umas 3 fazendas. mas sempre me dizia que iamos morar em Cajati. em 2006, voltamos pra lá. ele continuou morando aqui, na casa de seus funcionarios (pois ele ajuda com o alugueu de casas de funcionarios que não tem onde morar). nos visitava de 2 em 2 semanas praticamente. não durou um ano, e voltamos pra cá. ele comprou minha casa atual e ja moramos aqui a cerca de 4 anos. minha mãe conseguiu comprar os móveis da sala ano passado.

meu pai é muito mão de vaca, eu sei. ele tenta guardar o dinheiro até de sua sombra. quando está com os amigos, abre a mão. eu aproveito, hahaha.
ele diz que está guardando para o nosso futuro. hoje eu não faço a menos ideia do que ele possui. ele diz que eu não me interesso, mas quando eu pergunto, ele diz que não é da minha conta. (?), ele é doido.
ele continua dizendo que vamos morar em Cajati. todo ano ele estabelece uma data. esse ano ele disse que será daqui a 5 anos. eu sei que ele é muito trabalhador. sai de casa 7 da manhã e só volta 10 da noite. sua presença faz falta. mesmo sem estar em casa ele diz que sou preguiçosa e fala que eu fico o dia inteiro de bunda pra cima na cama. me chama de gorda, diz que sou burra e adora me humilhar na frente dos outros. eu entendo isso como sua forma de me educar. ele sabe que quanto mais ele me diminui, mais eu cresço, pra mostrar pra ele que sou capaz.

meu pai é um homem muito honesto e tenta ajudar muitas pessoas. seus funcionarios ou são moradores de favela, ou são gente lá de Cajati, que ele trouxe pra cá. essas pessoas que vieram de lá, não tem onde morar e meu pai ajuda com o aluguel, como eu disse antes. meus tios não falam com ele, porque todo mundo de sua família é cabeça dura. meu pai os ajudou, e eles não souberam aproveitar. enfiaram tudo no cú, agora não se falam.

ele me colocou pra trabalhar quando eu tinha 15 anos, mas me deu um carro. ele me magooa muito, mas também me surpreende muito. me bateu quando soube que eu experimentei droga, mas me abraçou e chorou quando fiz 18 anos. minha mãe morre de ciumes dele em relação a mim, sabe que sou praticamente a copia dele e mesmo a gente se vendo pouco, temos uma ligação muito forte. eu queria que ele fosse mais presente, que ele me desse mais dinheiro ou atenção, que ele fosse mais organizado, que ele fosse mais fiel, que ele fosse mais decidido. mas eu o amo, do jeito que ele é.
ele disse que sou o amor da sua vida. e nada no mundo me fez mais feliz do que isso.

Mauro Lúcio Lopes.

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