sempre convivi com o fato de não ser uma delas.
não to me fazendo de coitada não, to contando os fatos. dentro de casa, minha mãe sempre deu prioridade para as coisas em casa.. trabalhos domésticos, ou meus irmãos, ou pra igreja. nunca tínhamos um tempo pra gente. ela passava um minuto comigo e logo falava: vou pro meu quarto que vai passar um programa que eu quero muito ver, depois a gente resolve isso.
pouquíssimas vezes minha mãe foi em uma apresentação ou reunião minha no colégio, as poucas vezes em que foi, extremamente atrasada.
quando peço pra ela me buscar em algum lugar, ou está ocupada, ou me busca, e quando me busca, sempre se atrasa, ou estava comendo, ou foi no banheiro ou foi fazer algo antes.
sempre marcava as coisas comigo e furava, sempre deixa tudo pra amanhã, que nem sabemos se vai chegar.
meu pai sempre deu prioridade pras farmácias, ou então pra ele próprio. é o programa que ele quer ver, o restaurante onde ele quer comer, o final de semana em que ele decide o que fazer.
nunca me levou para os lugares, nunca me perguntou das minhas notas ou me ofereceu ajuda, nunca foi embora no horário que eu pedi, nunca sai do computador quando eu peço, nunca vê o programa que eu quero e poucas vezes me dá dinheiro.
sei que eu não tenho o direito de reclamar deles, porque me criaram muito bem, mas me fazem muita falta. nunca me deixaram faltar comida, cama, roupas. mas carinho e atenção, faltou muito.
e o que eu priorizo ? tudo. tudo que alguém me pede. pode ser uma pessoa que não é ninguém pra mim, que eu tento fazer o máximo pra ajudar.
quantas vezes sai do trabalho mais cedo pra ver alguém que me pediu. quantas vezes deixei de ficar com meus pais (quando eles podiam passar um tempo comigo), pra ficar com alguém. quantas vezes deixei de estudar, sair, dormir, ver um programa de TV, jogar um jogo que eu queria, ver um filme que eu esperava, ir pra um lugar que eu desejava, ficar com alguém que eu queria, de ouvir aquela musica que eu gosto, pra agradar alguém que caga pra mim.
quantas vezes briguei com a minha mãe, voltei tarde e sozinha pra casa, comi algo que não gostava. fui pra um lugar que eu odiava, ouvi uma musica que eu detesto, vi um filme ridículo, acordei cedo ou fui dormir tarde, corri pra comprar créditos pro meu celular, me virei pra sair/falar com alguém, que deixei de comprar algo pra mim pra comprar algo pra outra pessoa, quantas e quantas vezes, fui flexível e depois não fui recompensada...
eu juro que eu não fico esperando, não cobro, não jogo na cara, mas as vezes eu lembro, e me magoa o fato de dar tanto valor, pra quem não me dá.
já derramei muitas lagrimas por sentir que a pessoa não gosta o suficiente de mim, pra deixar de fazer aquilo.
eu assumo que odeio receber um não, fico irritada, puta demais com a pessoa e também admito que algumas vezes a pessoa não podia fazer nada, mas a raiva momentânea é muito mais forte.
até porque, porque as pessoas podem estourar comigo e eu não posso ? não guardo nem dinheiro, vou guardar raiva ?
é nessas horas, que um bom foda-se resolve tudo.
enquanto eu estou de braços abertos esperando e deixando de fazer qualquer outra coisa pra ficar com a pessoa é fácil. eu quero ver, quando eu decidir dizer foda-se de verdade, quando eu resolver dar o troco. quando eu começar a ignorar, quando eu não puder fazer tudo o que eu faço, ai sim... ai eu vou ver quem me dava prioridade, mas não serei eu que vou sair perdendo, tenho certeza que a pessoa que não me deu valor, que não me priorizou, vai perder muito mais quando eu não estiver do lado dela.
(sem indiretas, sem reclamações, só desabafo.)
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